sábado, 26 de dezembro de 2009

Outros cantos


Eu era pequenininha e já gostava de ouvir pássaros cantando. Quanto mais diferente era o canto, mais me encantava. Era mágico o jeito como eles se comunicavam com algo dentro de mim. Não eram palavras. Eu tentava, mas nunca via significado nas notas mágicas. Mas faziam sentido.

Mais tarde, eu já não caía tanto no canto de certos pássaros faceiros. A essa altura, eu já tinha noção do quanto aqueles bicos poderiam me machucar. Muitos foram os dias em que fiquei sozinha, ouvidos abandonados pelas inconstância dos voos, sempre egoístas em sua liberdade.

Eis que um serzinho alado colorido e belo me enfeitiçou com seu jeito engraçado de sonar. Cantou-me maravilhas. Meus ouvidos convenceram meu coração, que, tolo, voltou a acreditar na beleza e na verdade passageira desses seres de presença tão volátil no coração alheio. Esse canto me puxava para o alto, inflava meu ego e me sussurrava um futuro bom. Eu fui feliz.

Mas tão logo o tal canto colorido me mostrou sua finitude e foi-se embora com a primeira brisa de verão que soprou um movimento no ar. O tal pássaro libertino seguiu pra outros ares para toar encantos a outros ouvidos carentes de beleza e som coloridos. Desde então, trago meus ouvidos e coração surdos para os encantamentos alados que, perigosamente atrevidos,  ameaçam me fazer feliz de novo um dia.

Nota: Um dia achei um bem-te-vi ferido no meu jardim. Cuidei dele e ele me retribuiu com um cantar lindo, mas fugiu assim que melhorou. Lembrei de outros 'abandonos'. Metáforas. Histórias cruzadas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fim de caso

As palavras foram breves e leves. Tão leves que pareciam sussurros. Tão breves que ainda as busco na memória para não perdê-las, tateando-as, como que catando plumas voadoras num campo verde e aberto. Tão leves que acho que nem existiram, eram feitas de pó e eu lhes dei a cor que quis com minha imaginação, dando-lhes também alma. 

Dentre as coisas que não se deveria noticiar está o Fim. É quase um pecado. Penso que a finitude das coisas deveria ser somente sentida, como a memória de um velho que se esvai aos poucos, só que de efeito marcha-ré. Primeiro se sentiria uma pontadinha de lembrança dolorida, longe, looonge. Pra depois, com o tempo, poderem aparecer as pitadas de consciência misturadas com uma caduquice opiácea. Quando, enfim, a nuvem castanha e onírica evaporasse e a sobriedade aparecesse, só restaria a saudade da coisa finita.

Na verdade, acho mesmo que não ouvi nem uma letrinha sequer. Não ali, na hora do virar de costas, no bater da porta. Eu não conseguia apalpar as palavras-pluma porque elas me foram jogadas aos poucos, nesses anos todos. Mas uma coisa eu senti. O olhar que se evadia, que abandonava seu canto ainda quente em algum lugar em mim, deixando ocos meus desvãos, definitivamente, aquele olhar me soprava coisas, e eu conhecia a conclusão dorida daquelas palavras mudas. Palavras que mesmo descoloridas, sem peso, inexistentes, me trouxeram, à minha revelia e mesmo sendo pecado, a sobriedade arrasadora, com força, com tudo, sem um desconto, sem analgésico, sem nada.

Nota: Leitura do fim de algumas coisas.

domingo, 1 de novembro de 2009

O Desenraizar-se

Existia uma árvore forte, mas pouco expressiva. Os traços de seus galhos eram medianos, limitados, até um pouco curvados. Mas a jovem árvore adorava sonhar. Sonhava em ganhar a estrada, em alcançar as nuvens, em falar a língua dos pássaros. Quando sonhava, o fazia com tanta vontade que já sentia suas raízes mais rasas. Então vinha a Dona Lógica e dizia ao seu ouvido que sem firmeza no chão, ela não se sustentaria e não viveria por muito tempo. Depois vinha o Vento da Manhã, renovador de ares que só ele, lhe cochichando segredos de outras atmosferas que só ele possuía. Mas a árvore sabia, não havia possibilidade de felicidade somente num chão nutrido e firme. Ela necessitava mais. 

Suas companheiras, família por natureza, relutaram. Umas fizeram bico e viraram os galhos pro outro lado; outras ameaçaram chorar tudo que pudessem, desidratadas, em suicídio. Algumas mais adultas quiseram advertê-la sobre o fracasso e ainda disseram que, se isso acontecesse e precisasse voltar, não mais iriam afagar-lhe a copa, esquentando-lhe as extremidades no inverno. Mas ela decidiu e foi-se. Tirou de si toda a vontade, rompendo a terra em dores de parto, e conseguiu o impossível. A passos lentos chegou longe. Ela necessitou ir com suas próprias raízes e entender o que era verdadeiramente seu. Assim ela pôde perceber o quanto da sua imaginação era só poeira colorida e o quanto era verdade. Viu lágrimas, tristeza, solidão, escassez, cólera. Mas avistou também a esperança verdinha em folha nascendo a todo momento, a fé no invisível movendo mais que árvores, montanhas. Pôde vislumbrar o correr das águas, vivo, quase falante. Viu superação.

Ela voltou várias vezes contando boas histórias, mas nunca ficou. Ia e voltava. Ouviram-na falando uma língua estranha, uma que todos os seres entendem. Falaram que os passarinhos lhe cantam gracejos trepados em seus galhos, enquanto o vento travesso lhe sopra segredos alheios.

Dizem que ela é frequentemente vista no topo de uma montanha, onde ela fica a maior parte do tempo quieta, olhando a copa das outras árvores dançando suaves, o correr das águas de um rio caudaloso lá em baixo e sentindo o barulho que o vento faz, levando e trazendo, arrastando, renovando. Ela gosta desse cochicho. Talvez porque ela tenha entendido que a vida tem aquele som vivo, aquele som que se mexe, que corre, que vai atrás. Esse som que um dia se comunicou com a seiva que corre inquieta dentro dela. 

Nota: Leitura metafórica dos que anseiam por conhecer além de sua aldeia.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

AZUL, QUE TE QUERO AZUL


O dia amanheceu cedo demais para Seu Antônio. Eram quatro da madrugada e seus olhos já se tinham despertado, uma hora antes que de costume. Quando deu por si percebeu o porquê: era sábado, dia de feira. Levantou, deixou sua companheira sonhar um pouco mais e foi ver o mar. Seu Antônio adorava aqueles quilômetros de praia, aquele sol incandescente, a brisa matutina cheirando a maresia, as ondas faceiras como que querendo tocá-lo a cada vai-e-vem. Era ali, sentado num banco improvisado dum rolo de coqueiro, que ele dava diariamente as boas vindas ao dia, assim como fazia seu pai e seu avô. Também foi deles que herdou a casa modesta de taipa, a arte de fazer redes, a atividade pesqueira e o apego àquela terra.

Quando sua mulher despertou e lhe preparou o café, deu o afago tímido de sempre nos meninos e começou o dia. Tinha que juntar umas cinco dúzias de coco seco pra vender na feira e tirar todo o peixe da semana do cocho. Viu um cocho pela primeira vez aos oito anos, quando seu pai tirou a madeira presente do tronco de um coqueiro, deixando-o oco e colocou ali uns quilos de peixe entupidos de sal. Era a maneira de driblar a falta do fornecimento de energia elétrica sem ter prejuizos com a pesca.

Pronto. Colocou no caçuá do cavalo, coco de um lado e peixe do outro, e avisou à mulher que já estava saindo, antes de passar na casa do cumpadre, com quem sempre ia à feira. Da praia até o distrito vizinho onde acontecia a feira aos sábados era como uma hora de viagem a trote lento. No caminho, sempre contavam um ao outro sobre o peixe que pegaram tal dia, uma e outra história que alguém contou ou mesmo da má sorte alheia naquela semana. Mas algo que tava incomodando como espinha de peixe na goela era o tal caso do loteamento da praia. Um fulano tinha comprado grande parte das terras adjacentes e pretendia lotear. Pelo menos era o que falavam. E o cumpadre puxou essa conversa. Seu Antônio sentiu um desânimozinho, um anúncio do que ele sentia quando perdia um peixe grande por muito pouco. Mas a ideia logo se perdeu com a lembrança de que seu menino mais novo completava anos na semana seguinte. Precisava comprar alguma coisa. Ele nunca deixava passar em branco o dia de nenhum dos seus seis. 

Chegando lá, foi logo entregar os cocos encomendados e cuidou de arrumar um lugar pra amarrar o cavalo e descer os caçuás. Como de costume, seguiram-se horas de negociações, perde aqui, ganha ali. Um bezerro se soltou de seu dono e estragou uma dúzia dos seus peixes. “Prejuizo danado!”. Ainda bem que era fim de mês e não demorou muito pra vender o resto dos peixes e dos cocos. Quando o sol já estava quase indo embora, já tinha esvaziado os caçuás. Então, foi pra venda comprar o que dava dos mantimentos da semana, do sal pra conserva do pescado, já que já findava o que tinha em casa, e do querosene. Não podia ficar de fora a lembrança do menino. Mas o dinheiro recém-chegado, subtraído o prejuízo do garrote desembestado, não daria pra tudo. Optou por levar o presente e deixou o querosene. Tudo bem, dormiriam no escuro por uma semana. Valia a pena. Escolheu um pacote de confeito de morango, uma caixa nova de lápis de cor e um caderno de desenho com mais de 50 folhas. Ótimo! O pequeno gostava de pintar mundos e sonhos em papel, como ele próprio gostaria de ter podido pintar. O menor dos seus meninos era o que mais se parecia com ele. Filho de peixe mesmo...

A volta era o melhor do dia. A brisa agora soprava de frente e Seu Antônio seguia a direção do mar, sua casa. Não tinha contra-tempo diário que se agigantasse diante da imagem de sua terrinha. Aquela brancura da areia que esconde pegadas antigas, tatuís travessos e conchas cor-de-rosa. O salgado daquelas águas azuis, translúcidas, lúcidas, companheiras, quase um ser a mais naquela natureza solitária. Nem a modernidade ameaçadora que sonha levar embora a promessa de tranquildade eterna daquelas águas.

Seu Antônio caiu em si e conheceu o caminho de casa. Já estava perto. Chegando lá, desceu as modestas compras com os seus meninos enquanto sentia no pé do ouvido a frieza de um vento que parecia saudar sua chegada. Viu o pequeno e soube que não esperaria. Pegou o embrulho, enrolado num papel disfarçadamente colorido, e o entregou ao pequeno. Já conhecia o sorriso que lhe agradecia. Na encabulação natural de dizer “obrigado, painho”, o pequeno lhe sorriu um sorriso branco, sincero e cheio de palavras. Sim, valeu a pena. Seu Antônio teve certeza de que valeria a pena dormir no escuro por uma semana - por mais até - , já que este foi o preço da alegria tremenda de reconhecer a pureza e a simplicidade daquele pequeno paraíso, refletidas nos dentes sinceros de seu “peixinho menor”. Seu Antônio agradeceu lá com ele. Aliás, gratidão era a moeda que mais usava. E foi com olhos marejados que ele sustentou a vista naquela imensidão de água a sua frente e pensou que talvez ainda houvesse tempo de pintar mundos e sonhos. Tinha então uma certeza: os seus ainda estavam vivos e eram azuis.

Nota: Leitura de uma lembrança do passado, inspirada em meu avô Antônio e em minha linda Serrambi.

domingo, 29 de março de 2009

A Novidade Colorida e a Cidade Cinza


Um botão encarnado e fumegante em plena cidade gris.
A carola que saia da padaria gritou.
Correu lento o Joãozinho que voltava da pelada sujo de lama.
O soldado fardado de plantão em pose parou.
E o zé da feira cheirando a verdura pôs-se em olhos esbugalhados.
Ficam aturdidos com a novidade colorida.
Daqui a pouco não estavam em perigo,
mas já assinando sua participação no corriqueiro dos dias.
Memorizando, registrando, fotografando.
Tinha a informação pro jornal mais tarde.
A imagem pra viajar nos bytes de logo mais.
O telefone sem fio cotidiano de amanhã.
'Eu estava lá. Estava com o celular na mão. Eu vi, era enorme!'
Repassada a notícia, a cidade já ganhava de novo seu tom.
O botão também se acinzentou e
juntou-se ao ar comum, da mesma cor.
Tudo estava normal como antes. Pessoas cor de edifícios.
Concreto quente e vivo como gente.
Uns monóxidos a mais, uma escurecida no tom
e ressurgia com o sol cinzento de sempre o mesmo preto

e branco apressado da cidade-cinza de cada dia.

Nota: Leitura de um acontecimento já quase corriqueiro na "cidade grande": um incêncio.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Padecendo do amor que dói

 
Olhou pra avenida que corria em carros aos seus 100 km/h. Lembrou da pele bronzeada de cada um dos seus seis rebentos. Profissional em sofrimento, sabia bem o gosto doído de estar ali, viva. Desde a saída casa da mãe, ainda com uma boneca entre os pertences, até o contemplar diário do Rio do Capibaribe, encardido e cheio de vida, ela sabia. Não aguentaria ficar sem seu esteio, o mesmo que a havia "roubado" décadas antes do colo de sua mainha. Aguentou criar os filhos entre os espaços vazios no armário e as preces pra N. Senhora da Conceição. Porque labutar era sua herança. Tinha músculos rijos como as feições caboclas de sua face. Mas não suportaria que molestassem seu calcanhar rachado de Aquiles, seu sentimento maquiado de mulher forte, seu ego atrofiado.

Um grito engasgado latejava e sufocava. Sem ar, ela decidiu ir de encontro ao correr solto da massa cinzenta de asfalto e automóveis a sua frente. Mas a memória lhe dizia que era pecado, que era ida direta pro inferno. E as longas promessas de anos? E os olhos de Nossa Senhora olhando cálidos pra ela na capela de todo dia? Melhor... E os olhos atentos de seus filhos quando saiu aturdida de casa? Não. Eles estavam criados. Ela tinha a fé dos outros fiéis e as ofertas do domingo. E o inferno, o inferno não deveria ser tão ruim, afinal da quentura já estava acostumada, pelos 80 minutos diários que andava até o trabalho. Aliás, pra quê pensar tanto? A dor já chegava de novo. "Ele não me quer mais", "Não posso mais cuidar as roupas e da janta dele", "E agora?", "Agora é ela"... Não! Já foi... Ela foi. Ela foi sem se benzer. Atrapalhou o tráfego e o público, como na música das proparoxítonas. Só não era sábado, era um dia mais comum.

Entre o último passo e o último fôlego vi um alívio em dentes lavados de uma poeira encarnada. Um alívio que já conhecia, da mulher que ultrapassa o extremo, que aguenta a dor de ser rompida ao dar à luz, mas que não suporta sentir as navalhadas da lâmina fina do amor que dói.

Nota: Leitura do caso de uma conhecida que suicidou-se por ter perdido o companheiro.

sábado, 7 de março de 2009

A moça-flor, o Cuidador e o Dono

As flores estavam frescas. Estava colhendo flores no quintal alheio e vi uma moça-flor em cachos de pétala desbotados, olhos sem cor e pele meio opaca. O que tirara a cor dos seus olhos estava em seu ventre jovem e precoce. Dois beija-flores espelhados, casados pelos bicos que se beijavam. Assim sugavam da moça e um do outro toda a doçura do sopro de vida. Eles desabrochavam e ela murchava. O jardineiro, cuidador por excelência, decidiu pela moça-flor. Só ele sabia bem o que seria capaz de fazer a beleza de uma moça em flor... mas o Dono da terra achou que deveria punir o Cuidador por ele ter cuidado da flor. Ele não gostava de cuidadores. Logo os cuidadores, que cuidam tão bem e fazem por amor à beleza da flor. Logo aquele Dono, que sonhava em ser dono dos outros jardins e de todas as terras e agem por respeito a egos inflados.

Quando estava indo embora, vi o sorriso do Cuidador, vi que a tentativa de punição não fez a menor diferença. Vi que seus olhos brilhavam em alívio por ter cuidado de mais aquela moça, novinha em flor. Correspondi com um sorriso cheio de gratidão. Peguei as minhas flores frescas, prontas e fui enfeitar minha sala. "Aquele Cuidador de sorriso florido tinha razão", pensei eu com meus botões de flor, enquanto os olhava. Ele conhece com maestria a beleza de que cuida. E já ninguém mais lembrava do Dono, nem o Cuidador às voltas com os cuidados de outra flor - moça ou madura - nem os outros beija-flores que com certeza apareceram para sugar de novo e na hora certa aquela flor, nem eu, que já havia ido colher mais histórias de flor em outros jardins.


Nota: Leitura do caso dos médicos recifenses que foram excomungados pela Igreja por permitirem o aborto de garota de 9 anos, grávida de gêmeos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O Pierrot Embriagado e a Verdade em Gotas


Um gole. Um sorriso ao acaso. Um gole. Uma piscadela à toa. Um gole. A parede dança. Um gole. Olhos vigiantes. Um gole. Uma lembrança de eu menina. Um gole. O cheiro molhado do perfume da noite. Um gole. Um gosto doce de cana destilada. Um gole. Meus olhos travam ao piscar. Um gole. Antigas impressões desfeitas. Um gole. Imagem tosca de um pierrot vista no espelho do banheiro. Um gole. Uma ideia anunciada. Um último gole. Uma máscara caída. Não a do pierrot. Dele só caiu uma lágrima lúcida.

Nota: Leitura de uma constatação em uma noite inebriante de Carnaval.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Mousse de Coco



Fruto do coqueiro. Cor de algodão. Doce como nuvem. Mistura láctea, suave. É misturando que se apura.





Este doce é muito simples e vale a pena qualquer um preparar rapidinho, mesmo antes de fazer o almoço, que dá tempo saborear como sobremesa. Para quem provou e gostou, aqui a receita...
Ingredientes
01 vidro de leite de coco (pequeno)
01 lata de leite condensado
01 lata de creme de leite
04 claras em neve
04 colheres de sopa de coco ralado desidratado
Preparo:
Bata no liquidificador o leite de coco, o leite condensado e o creme de leite. Depois de bem misturado, acrescente a clara em neve previamente batida e misture tudo com a colher de pau. Não use batedeira nem liquificador nessa fase, pois os picos da clara em neve pode se desfazer e perder a consistência.Por último, junte o coco ralado, misture e leve ao congelador.
Pronto! Pedacinhos de nuvem adocicados ao seu alcance... bom apetite!!!


Nota: Esta não é uma leitura. É uma receita de prazer. :)

Explosão

Uma vez sonhei que não aguentava mais pensar. Cada letra pensada se inflava dentro de mim, como que cheia de ar, não de som e significado. Nem quando eu falava elas saiam, nem quando falava muito. Nem quando lia um livro todo em voz alta, nem assim elas se iam. Se eu ficava em dúvida no que fazer pro jantar elas me inchavam. Quando eu lembrava de uma música da infância... pluft! Quando fazia contas na cabeça, mesmo dois + cinco - três... pluft, pluft!

E nesse dia eu queria mais era explodir, jorrar. Desnudar minha mente. Porque entendi que não adiantava pensar por que havia tanto sapato no mundo e tão pouca comida, porque percebi que o homem nasceu marcado com a corrupção desde Eva, porque não interessava mais saber por que meu pai tinha se separado de minha mãe se jurou a Deus ficar com ela, porque aquela garotinha foi atingida por aquele carro naquele domingo...

E a vontade crescia porque esses pensamentos não vinham sozinhos, vinham carregados de sentimentos, e esses faziam as letras, as palavras, as ideias serem infladas de um hélio diferente, meio acizentado, que me neblinava as vistas, meio alaranjado, que me lembrava fogo, que esquentava, que me dilatava mais. Já era quase combustão quando pari uma gota salgada de alívio pelos olhos. Depois, mais uma e mais algumas. E pari uma ideia, uma palavra, uma letra quente que agora também ardia, porque palavra cheia de sentimento consome ar e, quando liberta, queima.

Esse dia foi hoje e a pele úmida me segredou que não era sonho. Uma dor vermelha e sufocante me levou o pensamento. Ele foi livre, parido, tranquilo. E eu explodida, mas leve, já podia voltar a inflar meus novos balõezinhos de palavras cheios de sentimento.

Nota: Esta é uma leitura e uma confissão. :)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Terra do sem-fim

Virava e mexia, vivia tentando colocar nas cabecinhas dos meus alunos a importância de um bom livro na vida escolar deles. Metaforizava, falando das faces que a leitura pode ter. Falava da leitura de ‘efeito brisa’, aquela que acalenta, dando a sensação do “que delícia isso!”. Também discorria do ‘efeito furacão’, a leitura que transtorna e deixa marcas duradouras, quiçá eternas. Mas nunca conseguia chegar a todos. Diante do dia a dia difuso de hoje, torna-se muito fácil perder a atenção deles para um game novo ou pelo toque do celular. É alarmante, porque as novas tecnologias parecem ameaçar aulas de leitura e, bem dissimuladamente, disputam a atenção dos jovens com o gosto pelos livros.

Outro dia, encontrei uma professora minha na fila do banco, D. Dolores. Lembrei-me de como ela deixava desinteressante qualquer história em quadrinhos. A velhota e suas tão temidas leituras-em-voz-alta-semanais atrofiaram a vontade imaginativa de muitas crianças que conheci naquela época. Como se já não bastasse, havia as terríveis palmadas com a lendária régua feita de pau-brasil, caso alguém se recusasse a concluir suas exigências. É... O pau-brasil que D. Dolores nos apresentava castrava sonhos!

Pois é, me lembro de ter duvidado várias vezes do gosto pela leitura que via em algumas crianças na biblioteca da escola. Poderia afirmar, sem medo de ser inexata, que aquelas crianças eram treinadas pelas suas mães a se portarem daquela maneira em troca do presente de Natal. “Como deveria ser chato ficar ali, por horas, olhando para um mesmo lugar... e o pior: um mesmo lugar quase sempre em preto e branco, sem cores”, ficava imaginando quando saía para o recreio e as via com seus livros. Por alguns anos, o mais próximo que cheguei da literatura era nos meus monólogos, pois eu sempre costumava exagerar ao contar o que tinha acontecido no dia anterior para as minhas amigas. Eu realmente me divertia com o não-real. Ops! Ou melhor, eu era uma criança mentirosa... E aquilo me era mágico!

Mas acontece que num belo dia tive um sonho. Nele, eu observava um garotinho triste que brincava sozinho num parque cheio de flores, brinquedos e de outras crianças. Caminhei em sua direção para olhá-lo mais de perto, mas, mesmo assim, não consegui perceber porque ele estava triste. Como num passe de mágica, vi um homem com um garotinho no colo. Na verdade, era o mesmo garotinho, só não consegui acompanhar quando o homem tinha chegado. E o homem - que a essa altura já deduzia ser o pai do menino – deu um beijo no filho, deu-lhe um livrinho de capa azul e soprou-lhe algo no ouvido (isso mesmo, soprou). Pisquei mais demoradamente, como que querendo limpar as vistas. E o homem sumiu. E, então, o garoto colocou-se na mesma posição daquelas meninas lá da biblioteca, distante de mim, distante das outras crianças, das flores e dos brinquedos. Mas agora ele tinha um quase sorriso nos lábios, que anunciava de instantes em instantes uma satisfação discreta, só dele. E foi naquele belo dia que acordei diferente, meio que liberta de D. Dolores e de sua régua de pau-brasil.

Vi alguma coisa de comum naquele “sorriso de Monalisa”. Era o mesmo que eu disfarçava quando mentia para minhas amigas, nos meus primeiros textos, os mesmos que mais tarde se transformariam nos meus primeiros livros. Então, depois do sonho, entendi como chegar aos meus alunos. Passei a dar minhas aulas de leitura associadas a truques de mágica. E logo, Chapeuzinho Vermelho tinha super-poderes em sua capa que a fizeram destruir o lobo em confetes coloridos de carnaval.

Mas eu cheguei ao outro extremo, pois percebi que nos livros não existe mágica. Existe a imaginação dos leitores. E, só por isso, compreendi que os livros não se comunicam com o que está em voga nem têm validade, posto que a imaginação também não o tem. Eles são a prática do que está latente, em menor ou maior escala, mas latente. Sem vara de condão, o que move a imaginação rompe o invisível, se identifica e se casa com a alma do livro, num enlace tão real que determina o final feliz.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Sussurro


"Eu me chamo Intensidade. Habito no âmago de todas as coisas que têm vida. De vez em quando (muito de vez em quando), sou 'sem cor', parcial; mas sempre por precaução. Nunca pequei por erro de cálculo..." - Diz-me algo ao pé do ouvido, que julgo vir de tudo que há em mim. Da totalidade, de cada poro. E essa voz que apenas me sussurra, mas que dá as coordenadas de tudo, é o mesmo mecanismo delineante que sinaliza a saturação das mesmas cores que outrora ausentou. Não só dá as formas, como também caracteriza a natureza e a personalidade do imaterial. "Sou, enfim, a condição amplificada do potencial da existência" - ameaça, ao mesmo tempo em que dá chão... E, por fim, me segreda: "É natural hesitar, mas não há parcialidade na felicidade."

Nota: Esta não é uma leitura. É um sussurro desplicente, quase um devaneio.