sábado, 2 de janeiro de 2010

E o amanhã: ano novo, vida nova

Contamos em uníssono os segundos restantes. Chega 2010, o ano próspero do Brasil. “Ano novo, vida nova” nos anuncia a tradição, como que fazendo uma promessa. Corremos para a praia para ver cores quentes e vibrantes no céu como crianças embasbacadas, abraçar e beijar desconhecidos e para sermos abençoados pela purificação das águas.

Mas a pseudo-promessa foi descumprida antes mesmo da primeira luz de sol para a menina prodígio de olhos brincantes e puxados que adorava música e acreditava no impossível. Não se pode ver nos olhos meio tranquilos, meio perdidos dos seus pais o que podem esperar pro amanhã. A finitude dos planos da menina que dizia querer ser cremada quando morresse ao som de 'Tears In Heaven', de Eric Clapton, varreu para nunca mais o direito do casal de poder novamente vê-la indo dormir, concluir a faculdade, casando, mostrando fotos de viagens e de rir junto num domingo à tarde.

Com certeza ela também olhou embasbacada os fogos travessos cintilando no céu, abraçou e beijou muitos desconhecidos e desejou lá no fundo poder realizar sonhos nesse novo ano, e teve certeza que conseguiria. Nesses instantes, Yumi esteve com um pé em cada lado dessa via de oscilação, onde as possibilidades e as impossibilidades transitam em contra-mão, cada qual desejando triunfar sobre alguém. Ninguém sabe por que ela,  por que eles todos.

Sim, o amanhã é possível, intenso, viçoso, verdinho em folha. Mas também incerto e finito. E mesmo quando o sol sinaliza um novo dia, os anseios de um povo convocam a bonança ou quando a tradição anuncia o triunfo das possibilidades, a direção das coisas pode estar aquém das nossas certezas e de nós e a inversão pode acontecer e fazer triunfar a via das impossibilidades.

Nota: Leitura do fatídico começo de 2010 em Angra dos Reis e Ilha Bela e de muitos outros contextos em que o trágico triunfa.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Outros cantos


Eu era pequenininha e já gostava de ouvir pássaros cantando. Quanto mais diferente era o canto, mais me encantava. Era mágico o jeito como eles se comunicavam com algo dentro de mim. Não eram palavras. Eu tentava, mas nunca via significado nas notas mágicas. Mas faziam sentido.

Mais tarde, eu já não caía tanto no canto de certos pássaros faceiros. A essa altura, eu já tinha noção do quanto aqueles bicos poderiam me machucar. Muitos foram os dias em que fiquei sozinha, ouvidos abandonados pelas inconstância dos voos, sempre egoístas em sua liberdade.

Eis que um serzinho alado colorido e belo me enfeitiçou com seu jeito engraçado de sonar. Cantou-me maravilhas. Meus ouvidos convenceram meu coração, que, tolo, voltou a acreditar na beleza e na verdade passageira desses seres de presença tão volátil no coração alheio. Esse canto me puxava para o alto, inflava meu ego e me sussurrava um futuro bom. Eu fui feliz.

Mas tão logo o tal canto colorido me mostrou sua finitude e foi-se embora com a primeira brisa de verão que soprou um movimento no ar. O tal pássaro libertino seguiu pra outros ares para toar encantos a outros ouvidos carentes de beleza e som coloridos. Desde então, trago meus ouvidos e coração surdos para os encantamentos alados que, perigosamente atrevidos,  ameaçam me fazer feliz de novo um dia.

Nota: Um dia achei um bem-te-vi ferido no meu jardim. Cuidei dele e ele me retribuiu com um cantar lindo, mas fugiu assim que melhorou. Lembrei de outros 'abandonos'. Metáforas. Histórias cruzadas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fim de caso

As palavras foram breves e leves. Tão leves que pareciam sussurros. Tão breves que ainda as busco na memória para não perdê-las, tateando-as, como que catando plumas voadoras num campo verde e aberto. Tão leves que acho que nem existiram, eram feitas de pó e eu lhes dei a cor que quis com minha imaginação, dando-lhes também alma. 

Dentre as coisas que não se deveria noticiar está o Fim. É quase um pecado. Penso que a finitude das coisas deveria ser somente sentida, como a memória de um velho que se esvai aos poucos, só que de efeito marcha-ré. Primeiro se sentiria uma pontadinha de lembrança dolorida, longe, looonge. Pra depois, com o tempo, poderem aparecer as pitadas de consciência misturadas com uma caduquice opiácea. Quando, enfim, a nuvem castanha e onírica evaporasse e a sobriedade aparecesse, só restaria a saudade da coisa finita.

Na verdade, acho mesmo que não ouvi nem uma letrinha sequer. Não ali, na hora do virar de costas, no bater da porta. Eu não conseguia apalpar as palavras-pluma porque elas me foram jogadas aos poucos, nesses anos todos. Mas uma coisa eu senti. O olhar que se evadia, que abandonava seu canto ainda quente em algum lugar em mim, deixando ocos meus desvãos, definitivamente, aquele olhar me soprava coisas, e eu conhecia a conclusão dorida daquelas palavras mudas. Palavras que mesmo descoloridas, sem peso, inexistentes, me trouxeram, à minha revelia e mesmo sendo pecado, a sobriedade arrasadora, com força, com tudo, sem um desconto, sem analgésico, sem nada.

Nota: Leitura do fim de algumas coisas.

domingo, 1 de novembro de 2009

O Desenraizar-se

Existia uma árvore forte, mas pouco expressiva. Os traços de seus galhos eram medianos, limitados, até um pouco curvados. Mas a jovem árvore adorava sonhar. Sonhava em ganhar a estrada, em alcançar as nuvens, em falar a língua dos pássaros. Quando sonhava, o fazia com tanta vontade que já sentia suas raízes mais rasas. Então vinha a Dona Lógica e dizia ao seu ouvido que sem firmeza no chão, ela não se sustentaria e não viveria por muito tempo. Depois vinha o Vento da Manhã, renovador de ares que só ele, lhe cochichando segredos de outras atmosferas que só ele possuía. Mas a árvore sabia, não havia possibilidade de felicidade somente num chão nutrido e firme. Ela necessitava mais. 

Suas companheiras, família por natureza, relutaram. Umas fizeram bico e viraram os galhos pro outro lado; outras ameaçaram chorar tudo que pudessem, desidratadas, em suicídio. Algumas mais adultas quiseram advertê-la sobre o fracasso e ainda disseram que, se isso acontecesse e precisasse voltar, não mais iriam afagar-lhe a copa, esquentando-lhe as extremidades no inverno. Mas ela decidiu e foi-se. Tirou de si toda a vontade, rompendo a terra em dores de parto, e conseguiu o impossível. A passos lentos chegou longe. Ela necessitou ir com suas próprias raízes e entender o que era verdadeiramente seu. Assim ela pôde perceber o quanto da sua imaginação era só poeira colorida e o quanto era verdade. Viu lágrimas, tristeza, solidão, escassez, cólera. Mas avistou também a esperança verdinha em folha nascendo a todo momento, a fé no invisível movendo mais que árvores, montanhas. Pôde vislumbrar o correr das águas, vivo, quase falante. Viu superação.

Ela voltou várias vezes contando boas histórias, mas nunca ficou. Ia e voltava. Ouviram-na falando uma língua estranha, uma que todos os seres entendem. Falaram que os passarinhos lhe cantam gracejos trepados em seus galhos, enquanto o vento travesso lhe sopra segredos alheios.

Dizem que ela é frequentemente vista no topo de uma montanha, onde ela fica a maior parte do tempo quieta, olhando a copa das outras árvores dançando suaves, o correr das águas de um rio caudaloso lá em baixo e sentindo o barulho que o vento faz, levando e trazendo, arrastando, renovando. Ela gosta desse cochicho. Talvez porque ela tenha entendido que a vida tem aquele som vivo, aquele som que se mexe, que corre, que vai atrás. Esse som que um dia se comunicou com a seiva que corre inquieta dentro dela. 

Nota: Leitura metafórica dos que anseiam por conhecer além de sua aldeia.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

AZUL, QUE TE QUERO AZUL


O dia amanheceu cedo demais para Seu Antônio. Eram quatro da madrugada e seus olhos já se tinham despertado, uma hora antes que de costume. Quando deu por si percebeu o porquê: era sábado, dia de feira. Levantou, deixou sua companheira sonhar um pouco mais e foi ver o mar. Seu Antônio adorava aqueles quilômetros de praia, aquele sol incandescente, a brisa matutina cheirando a maresia, as ondas faceiras como que querendo tocá-lo a cada vai-e-vem. Era ali, sentado num banco improvisado dum rolo de coqueiro, que ele dava diariamente as boas vindas ao dia, assim como fazia seu pai e seu avô. Também foi deles que herdou a casa modesta de taipa, a arte de fazer redes, a atividade pesqueira e o apego àquela terra.

Quando sua mulher despertou e lhe preparou o café, deu o afago tímido de sempre nos meninos e começou o dia. Tinha que juntar umas cinco dúzias de coco seco pra vender na feira e tirar todo o peixe da semana do cocho. Viu um cocho pela primeira vez aos oito anos, quando seu pai tirou a madeira presente do tronco de um coqueiro, deixando-o oco e colocou ali uns quilos de peixe entupidos de sal. Era a maneira de driblar a falta do fornecimento de energia elétrica sem ter prejuizos com a pesca.

Pronto. Colocou no caçuá do cavalo, coco de um lado e peixe do outro, e avisou à mulher que já estava saindo, antes de passar na casa do cumpadre, com quem sempre ia à feira. Da praia até o distrito vizinho onde acontecia a feira aos sábados era como uma hora de viagem a trote lento. No caminho, sempre contavam um ao outro sobre o peixe que pegaram tal dia, uma e outra história que alguém contou ou mesmo da má sorte alheia naquela semana. Mas algo que tava incomodando como espinha de peixe na goela era o tal caso do loteamento da praia. Um fulano tinha comprado grande parte das terras adjacentes e pretendia lotear. Pelo menos era o que falavam. E o cumpadre puxou essa conversa. Seu Antônio sentiu um desânimozinho, um anúncio do que ele sentia quando perdia um peixe grande por muito pouco. Mas a ideia logo se perdeu com a lembrança de que seu menino mais novo completava anos na semana seguinte. Precisava comprar alguma coisa. Ele nunca deixava passar em branco o dia de nenhum dos seus seis. 

Chegando lá, foi logo entregar os cocos encomendados e cuidou de arrumar um lugar pra amarrar o cavalo e descer os caçuás. Como de costume, seguiram-se horas de negociações, perde aqui, ganha ali. Um bezerro se soltou de seu dono e estragou uma dúzia dos seus peixes. “Prejuizo danado!”. Ainda bem que era fim de mês e não demorou muito pra vender o resto dos peixes e dos cocos. Quando o sol já estava quase indo embora, já tinha esvaziado os caçuás. Então, foi pra venda comprar o que dava dos mantimentos da semana, do sal pra conserva do pescado, já que já findava o que tinha em casa, e do querosene. Não podia ficar de fora a lembrança do menino. Mas o dinheiro recém-chegado, subtraído o prejuízo do garrote desembestado, não daria pra tudo. Optou por levar o presente e deixou o querosene. Tudo bem, dormiriam no escuro por uma semana. Valia a pena. Escolheu um pacote de confeito de morango, uma caixa nova de lápis de cor e um caderno de desenho com mais de 50 folhas. Ótimo! O pequeno gostava de pintar mundos e sonhos em papel, como ele próprio gostaria de ter podido pintar. O menor dos seus meninos era o que mais se parecia com ele. Filho de peixe mesmo...

A volta era o melhor do dia. A brisa agora soprava de frente e Seu Antônio seguia a direção do mar, sua casa. Não tinha contra-tempo diário que se agigantasse diante da imagem de sua terrinha. Aquela brancura da areia que esconde pegadas antigas, tatuís travessos e conchas cor-de-rosa. O salgado daquelas águas azuis, translúcidas, lúcidas, companheiras, quase um ser a mais naquela natureza solitária. Nem a modernidade ameaçadora que sonha levar embora a promessa de tranquildade eterna daquelas águas.

Seu Antônio caiu em si e conheceu o caminho de casa. Já estava perto. Chegando lá, desceu as modestas compras com os seus meninos enquanto sentia no pé do ouvido a frieza de um vento que parecia saudar sua chegada. Viu o pequeno e soube que não esperaria. Pegou o embrulho, enrolado num papel disfarçadamente colorido, e o entregou ao pequeno. Já conhecia o sorriso que lhe agradecia. Na encabulação natural de dizer “obrigado, painho”, o pequeno lhe sorriu um sorriso branco, sincero e cheio de palavras. Sim, valeu a pena. Seu Antônio teve certeza de que valeria a pena dormir no escuro por uma semana - por mais até - , já que este foi o preço da alegria tremenda de reconhecer a pureza e a simplicidade daquele pequeno paraíso, refletidas nos dentes sinceros de seu “peixinho menor”. Seu Antônio agradeceu lá com ele. Aliás, gratidão era a moeda que mais usava. E foi com olhos marejados que ele sustentou a vista naquela imensidão de água a sua frente e pensou que talvez ainda houvesse tempo de pintar mundos e sonhos. Tinha então uma certeza: os seus ainda estavam vivos e eram azuis.

Nota: Leitura de uma lembrança do passado, inspirada em meu avô Antônio e em minha linda Serrambi.