domingo, 29 de março de 2009

A Novidade Colorida e a Cidade Cinza


Um botão encarnado e fumegante em plena cidade gris.
A carola que saia da padaria gritou.
Correu lento o Joãozinho que voltava da pelada sujo de lama.
O soldado fardado de plantão em pose parou.
E o zé da feira cheirando a verdura pôs-se em olhos esbugalhados.
Ficam aturdidos com a novidade colorida.
Daqui a pouco não estavam em perigo,
mas já assinando sua participação no corriqueiro dos dias.
Memorizando, registrando, fotografando.
Tinha a informação pro jornal mais tarde.
A imagem pra viajar nos bytes de logo mais.
O telefone sem fio cotidiano de amanhã.
'Eu estava lá. Estava com o celular na mão. Eu vi, era enorme!'
Repassada a notícia, a cidade já ganhava de novo seu tom.
O botão também se acinzentou e
juntou-se ao ar comum, da mesma cor.
Tudo estava normal como antes. Pessoas cor de edifícios.
Concreto quente e vivo como gente.
Uns monóxidos a mais, uma escurecida no tom
e ressurgia com o sol cinzento de sempre o mesmo preto

e branco apressado da cidade-cinza de cada dia.

Nota: Leitura de um acontecimento já quase corriqueiro na "cidade grande": um incêncio.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Padecendo do amor que dói

 
Olhou pra avenida que corria em carros aos seus 100 km/h. Lembrou da pele bronzeada de cada um dos seus seis rebentos. Profissional em sofrimento, sabia bem o gosto doído de estar ali, viva. Desde a saída casa da mãe, ainda com uma boneca entre os pertences, até o contemplar diário do Rio do Capibaribe, encardido e cheio de vida, ela sabia. Não aguentaria ficar sem seu esteio, o mesmo que a havia "roubado" décadas antes do colo de sua mainha. Aguentou criar os filhos entre os espaços vazios no armário e as preces pra N. Senhora da Conceição. Porque labutar era sua herança. Tinha músculos rijos como as feições caboclas de sua face. Mas não suportaria que molestassem seu calcanhar rachado de Aquiles, seu sentimento maquiado de mulher forte, seu ego atrofiado.

Um grito engasgado latejava e sufocava. Sem ar, ela decidiu ir de encontro ao correr solto da massa cinzenta de asfalto e automóveis a sua frente. Mas a memória lhe dizia que era pecado, que era ida direta pro inferno. E as longas promessas de anos? E os olhos de Nossa Senhora olhando cálidos pra ela na capela de todo dia? Melhor... E os olhos atentos de seus filhos quando saiu aturdida de casa? Não. Eles estavam criados. Ela tinha a fé dos outros fiéis e as ofertas do domingo. E o inferno, o inferno não deveria ser tão ruim, afinal da quentura já estava acostumada, pelos 80 minutos diários que andava até o trabalho. Aliás, pra quê pensar tanto? A dor já chegava de novo. "Ele não me quer mais", "Não posso mais cuidar as roupas e da janta dele", "E agora?", "Agora é ela"... Não! Já foi... Ela foi. Ela foi sem se benzer. Atrapalhou o tráfego e o público, como na música das proparoxítonas. Só não era sábado, era um dia mais comum.

Entre o último passo e o último fôlego vi um alívio em dentes lavados de uma poeira encarnada. Um alívio que já conhecia, da mulher que ultrapassa o extremo, que aguenta a dor de ser rompida ao dar à luz, mas que não suporta sentir as navalhadas da lâmina fina do amor que dói.

Nota: Leitura do caso de uma conhecida que suicidou-se por ter perdido o companheiro.

sábado, 7 de março de 2009

A moça-flor, o Cuidador e o Dono

As flores estavam frescas. Estava colhendo flores no quintal alheio e vi uma moça-flor em cachos de pétala desbotados, olhos sem cor e pele meio opaca. O que tirara a cor dos seus olhos estava em seu ventre jovem e precoce. Dois beija-flores espelhados, casados pelos bicos que se beijavam. Assim sugavam da moça e um do outro toda a doçura do sopro de vida. Eles desabrochavam e ela murchava. O jardineiro, cuidador por excelência, decidiu pela moça-flor. Só ele sabia bem o que seria capaz de fazer a beleza de uma moça em flor... mas o Dono da terra achou que deveria punir o Cuidador por ele ter cuidado da flor. Ele não gostava de cuidadores. Logo os cuidadores, que cuidam tão bem e fazem por amor à beleza da flor. Logo aquele Dono, que sonhava em ser dono dos outros jardins e de todas as terras e agem por respeito a egos inflados.

Quando estava indo embora, vi o sorriso do Cuidador, vi que a tentativa de punição não fez a menor diferença. Vi que seus olhos brilhavam em alívio por ter cuidado de mais aquela moça, novinha em flor. Correspondi com um sorriso cheio de gratidão. Peguei as minhas flores frescas, prontas e fui enfeitar minha sala. "Aquele Cuidador de sorriso florido tinha razão", pensei eu com meus botões de flor, enquanto os olhava. Ele conhece com maestria a beleza de que cuida. E já ninguém mais lembrava do Dono, nem o Cuidador às voltas com os cuidados de outra flor - moça ou madura - nem os outros beija-flores que com certeza apareceram para sugar de novo e na hora certa aquela flor, nem eu, que já havia ido colher mais histórias de flor em outros jardins.


Nota: Leitura do caso dos médicos recifenses que foram excomungados pela Igreja por permitirem o aborto de garota de 9 anos, grávida de gêmeos.