domingo, 1 de novembro de 2009

O Desenraizar-se

Existia uma árvore forte, mas pouco expressiva. Os traços de seus galhos eram medianos, limitados, até um pouco curvados. Mas a jovem árvore adorava sonhar. Sonhava em ganhar a estrada, em alcançar as nuvens, em falar a língua dos pássaros. Quando sonhava, o fazia com tanta vontade que já sentia suas raízes mais rasas. Então vinha a Dona Lógica e dizia ao seu ouvido que sem firmeza no chão, ela não se sustentaria e não viveria por muito tempo. Depois vinha o Vento da Manhã, renovador de ares que só ele, lhe cochichando segredos de outras atmosferas que só ele possuía. Mas a árvore sabia, não havia possibilidade de felicidade somente num chão nutrido e firme. Ela necessitava mais. 

Suas companheiras, família por natureza, relutaram. Umas fizeram bico e viraram os galhos pro outro lado; outras ameaçaram chorar tudo que pudessem, desidratadas, em suicídio. Algumas mais adultas quiseram advertê-la sobre o fracasso e ainda disseram que, se isso acontecesse e precisasse voltar, não mais iriam afagar-lhe a copa, esquentando-lhe as extremidades no inverno. Mas ela decidiu e foi-se. Tirou de si toda a vontade, rompendo a terra em dores de parto, e conseguiu o impossível. A passos lentos chegou longe. Ela necessitou ir com suas próprias raízes e entender o que era verdadeiramente seu. Assim ela pôde perceber o quanto da sua imaginação era só poeira colorida e o quanto era verdade. Viu lágrimas, tristeza, solidão, escassez, cólera. Mas avistou também a esperança verdinha em folha nascendo a todo momento, a fé no invisível movendo mais que árvores, montanhas. Pôde vislumbrar o correr das águas, vivo, quase falante. Viu superação.

Ela voltou várias vezes contando boas histórias, mas nunca ficou. Ia e voltava. Ouviram-na falando uma língua estranha, uma que todos os seres entendem. Falaram que os passarinhos lhe cantam gracejos trepados em seus galhos, enquanto o vento travesso lhe sopra segredos alheios.

Dizem que ela é frequentemente vista no topo de uma montanha, onde ela fica a maior parte do tempo quieta, olhando a copa das outras árvores dançando suaves, o correr das águas de um rio caudaloso lá em baixo e sentindo o barulho que o vento faz, levando e trazendo, arrastando, renovando. Ela gosta desse cochicho. Talvez porque ela tenha entendido que a vida tem aquele som vivo, aquele som que se mexe, que corre, que vai atrás. Esse som que um dia se comunicou com a seiva que corre inquieta dentro dela. 

Nota: Leitura metafórica dos que anseiam por conhecer além de sua aldeia.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

AZUL QUE TE QUERO AZUL


O dia amanheceu cedo demais para Seu Antônio. Eram quatro da madrugada e seus olhos já se tinham despertado, uma hora antes que de costume. Quando deu por si percebeu o porquê: era sábado, dia de feira. Levantou, deixou sua companheira sonhar um pouco mais e foi ver o mar. Seu Antônio adorava aqueles quilômetros de praia, aquele sol incandescente, a brisa matutina cheirando a maresia, as ondas faceiras como que querendo tocá-lo a cada vai-e-vem. Era ali, sentado num banco improvisado feito de um rolo de coqueiro que ele dava diariamente as boas vindas ao dia, assim como fizeram seu pai e seu avô. Também foi deles que herdou a casa modesta de taipa, a arte de fazer tarrafas, a atividade pesqueira e o apego àquela terra.

Quando sua mulher despertou e lhe preparou o café, deu o afago tímido de sempre nos meninos e começou o dia. Tinha que juntar umas cinco dúzias de coco seco pra vender na feira e tirar todo o peixe da semana do cocho. Era o que dava pra carregar numa viagem só. Prestou atenção num cocho pela primeira vez aos cinco anos, quando seu pai tirou raspou o interior do tronco de um coqueiro, deixando-o oco, e colocou ali uns quilos de peixe entupidos de sal. Era a maneira de driblar a falta do fornecimento de energia elétrica sem ter prejuízos com a pesca.

Pronto. Colocou no caçuá do cavalo, coco de um lado e peixe do outro, e avisou à mulher que já estava saindo, antes de passar na casa do cumpadre, com quem sempre ia à feira. Da praia até o distrito vizinho onde acontecia a feira aos sábados era como uma hora de viagem, a trote lento. No caminho, sempre contavam um ao outro sobre o peixe que pegaram tal dia, uma e outra história que alguém contou ou mesmo da má sorte alheia naquela semana. Mas algo que tava incomodando como espinha de peixe na goela era o tal caso do loteamento da praia. Um fulano tinha comprado grande parte das terras adjacentes e pretendia lotear. Pelo menos era o que falavam. E o cumpadre puxou essa conversa. Seu Antônio sentiu um desânimozinho, um anúncio do que ele sentia quando perdia um peixe grande por muito pouco. Mas a ideia logo se perdeu com a lembrança de que seu menino mais novo completava anos na semana seguinte. Precisava comprar alguma coisa. Ele nunca deixava passar em branco o dia de nenhum dos seus cinco. 

Chegando lá, foi logo entregar os cocos encomendados e cuidou de arrumar um lugar pra amarrar o cavalo e descer os caçuás. Como de costume, seguiram-se horas de negociações, perde aqui, ganha ali. Um bezerro se soltou de seu dono e estragou uma dúzia dos seus peixes. “Prejuízo danado!”. Ainda bem que era fim de mês e não demorou muito pra vender o resto dos peixes e dos cocos. Quando o sol já estava quase indo embora, já tinha esvaziado os caçuás. Então, foi pra venda comprar o que dava dos mantimentos da semana, do sal pra conserva do pescado, já que já findava o que tinha em casa, e do querosene. Não podia ficar de fora a lembrança do menino. Mas o dinheiro recém-chegado, subtraído o prejuízo do garrote desembestado, não daria pra tudo. Optou por levar o presente e deixou o querosene. Tudo bem, dormiriam no escuro por uma semana. Valia a pena. Escolheu um pacote de confeito de morango, uma caixa nova de lápis de cor e um caderno de desenho com 50 folhas. Ótimo! O pequeno gostava de pintar mundos e sonhos em papel, como ele próprio gostaria de ter podido pintar, se tivesse frequentado uma escola. O menor dos seus meninos era o que mais se parecia com ele. Filho de peixe mesmo...

A volta era o melhor do dia. A brisa agora soprava de frente e Seu Antônio seguia a direção do mar, sua casa. Não tinha contra-tempo diário que se agigantasse diante da imagem de sua terrinha. Aquela brancura da areia que esconde pegadas antigas, tatuís travessos e conchas cor-de-rosa. O salgado daquelas águas azuis, translúcidas, lúcidas, companheiras, quase um ser a mais naquela natureza solitária. Nem a modernidade ameaçadora que sonha levar embora a promessa de tranquilidade eterna daquelas águas.

Seu Antônio caiu em si e conheceu o caminho de casa. Já estava perto. Chegando lá, desceu as modestas compras com os seus meninos, enquanto sentia no pé do ouvido a frieza de um vento que parecia saudar sua chegada. Viu o pequeno e soube que não esperaria. Pegou o embrulho, enrolado num papel disfarçadamente colorido, e o entregou ao pequeno. Já conhecia o sorriso que lhe agradecia. Na encabulação natural de dizer “obrigado, painho”, o pequeno lhe sorriu um sorriso branco, sincero e cheio de palavras. Sim, valeu a pena. Seu Antônio teve a certeza de que valeria a pena dormir no escuro por uma semana - por mais até - , já que este foi o preço da alegria tremenda de reconhecer a pureza e a simplicidade do seu pequeno paraíso, refletidas nos dentes sinceros de seu “peixinho menor”. Seu Antônio agradeceu lá com ele. Aliás, gratidão era a moeda que mais usava. E foi com olhos marejados que ele sustentou a vista naquela imensidão de água à sua frente e pensou que talvez ainda houvesse tempo de pintar mundos e sonhos. Tinha então uma certeza: os seus ainda estavam vivos e eram azuis.

Nota: Leitura de uma lembrança do passado, inspirada em meu avô Antônio e em minha linda Serrambi.

domingo, 29 de março de 2009

A Novidade Colorida e a Cidade Cinza


Um botão encarnado e fumegante em plena cidade gris.
A carola que saia da padaria gritou.
Correu lento o Joãozinho que voltava da pelada sujo de lama.
O soldado fardado de plantão em pose parou.
E o zé da feira cheirando a verdura pôs-se em olhos esbugalhados.
Ficam aturdidos com a novidade colorida.
Daqui a pouco não estavam em perigo,
mas já assinando sua participação no corriqueiro dos dias.
Memorizando, registrando, fotografando.
Tinha a informação pro jornal mais tarde.
A imagem pra viajar nos bytes de logo mais.
O telefone sem fio cotidiano de amanhã.
'Eu estava lá. Estava com o celular na mão. Eu vi, era enorme!'
Repassada a notícia, a cidade já ganhava de novo seu tom.
O botão também se acinzentou e
juntou-se ao ar comum, da mesma cor.
Tudo estava normal como antes. Pessoas cor de edifícios.
Concreto quente e vivo como gente.
Uns monóxidos a mais, uma escurecida no tom
e ressurgia com o sol cinzento de sempre o mesmo preto

e branco apressado da cidade-cinza de cada dia.

Nota: Leitura de um acontecimento já quase corriqueiro na "cidade grande": um incêncio.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Padecendo do amor que dói

 
Olhou pra avenida que corria em carros aos seus 100 km/h. Lembrou da pele bronzeada de cada um dos seus seis rebentos. Profissional em sofrimento, sabia bem o gosto doído de estar ali, viva. Desde a saída casa da mãe, ainda com uma boneca entre os pertences, até o contemplar diário do Rio do Capibaribe, encardido e cheio de vida, ela sabia. Não aguentaria ficar sem seu esteio, o mesmo que a havia "roubado" décadas antes do colo de sua mainha. Aguentou criar os filhos entre os espaços vazios no armário e as preces pra N. Senhora da Conceição. Porque labutar era sua herança. Tinha músculos rijos como as feições caboclas de sua face. Mas não suportaria que molestassem seu calcanhar rachado de Aquiles, seu sentimento maquiado de mulher forte, seu ego atrofiado.

Um grito engasgado latejava e sufocava. Sem ar, ela decidiu ir de encontro ao correr solto da massa cinzenta de asfalto e automóveis a sua frente. Mas a memória lhe dizia que era pecado, que era ida direta pro inferno. E as longas promessas de anos? E os olhos de Nossa Senhora olhando cálidos pra ela na capela de todo dia? Melhor... E os olhos atentos de seus filhos quando saiu aturdida de casa? Não. Eles estavam criados. Ela tinha a fé dos outros fiéis e as ofertas do domingo. E o inferno, o inferno não deveria ser tão ruim, afinal da quentura já estava acostumada, pelos 80 minutos diários que andava até o trabalho. Aliás, pra quê pensar tanto? A dor já chegava de novo. "Ele não me quer mais", "Não posso mais cuidar as roupas e da janta dele", "E agora?", "Agora é ela"... Não! Já foi... Ela foi. Ela foi sem se benzer. Atrapalhou o tráfego e o público, como na música das proparoxítonas. Só não era sábado, era um dia mais comum.

Entre o último passo e o último fôlego vi um alívio em dentes lavados de uma poeira encarnada. Um alívio que já conhecia, da mulher que ultrapassa o extremo, que aguenta a dor de ser rompida ao dar à luz, mas que não suporta sentir as navalhadas da lâmina fina do amor que dói.

Nota: Leitura do caso de uma conhecida que suicidou-se por ter perdido o companheiro.

sábado, 7 de março de 2009

A moça-flor, o Cuidador e o Dono

As flores estavam frescas. Estava colhendo flores no quintal alheio e vi uma moça-flor em cachos de pétala desbotados, olhos sem cor e pele meio opaca. O que tirara a cor dos seus olhos estava em seu ventre jovem e precoce. Dois beija-flores espelhados, casados pelos bicos que se beijavam. Assim sugavam da moça e um do outro toda a doçura do sopro de vida. Eles desabrochavam e ela murchava. O jardineiro, cuidador por excelência, decidiu pela moça-flor. Só ele sabia bem o que seria capaz de fazer a beleza de uma moça em flor... mas o Dono da terra achou que deveria punir o Cuidador por ele ter cuidado da flor. Ele não gostava de cuidadores. Logo os cuidadores, que cuidam tão bem e fazem por amor à beleza da flor. Logo aquele Dono, que sonhava em ser dono dos outros jardins e de todas as terras e agem por respeito a egos inflados.

Quando estava indo embora, vi o sorriso do Cuidador, vi que a tentativa de punição não fez a menor diferença. Vi que seus olhos brilhavam em alívio por ter cuidado de mais aquela moça, novinha em flor. Correspondi com um sorriso cheio de gratidão. Peguei as minhas flores frescas, prontas e fui enfeitar minha sala. "Aquele Cuidador de sorriso florido tinha razão", pensei eu com meus botões de flor, enquanto os olhava. Ele conhece com maestria a beleza de que cuida. E já ninguém mais lembrava do Dono, nem o Cuidador às voltas com os cuidados de outra flor - moça ou madura - nem os outros beija-flores que com certeza apareceram para sugar de novo e na hora certa aquela flor, nem eu, que já havia ido colher mais histórias de flor em outros jardins.


Nota: Leitura do caso dos médicos recifenses que foram excomungados pela Igreja por fazerem aborto em garota de 9 anos, grávida de gêmeos.