quarta-feira, 18 de março de 2009

Padecendo do amor que dói

 
Olhou pra avenida que corria em carros aos seus 100 km/h. Lembrou da pele bronzeada de cada um dos seus seis rebentos. Profissional em sofrimento, sabia bem o gosto doído de estar ali, viva. Desde a saída casa da mãe, ainda com uma boneca entre os pertences, até o contemplar diário do Rio do Capibaribe, encardido e cheio de vida, ela sabia. Não aguentaria ficar sem seu esteio, o mesmo que a havia "roubado" décadas antes do colo de sua mainha. Aguentou criar os filhos entre os espaços vazios no armário e as preces pra N. Senhora da Conceição. Porque labutar era sua herança. Tinha músculos rijos como as feições caboclas de sua face. Mas não suportaria que molestassem seu calcanhar rachado de Aquiles, seu sentimento maquiado de mulher forte, seu ego atrofiado.

Um grito engasgado latejava e sufocava. Sem ar, ela decidiu ir de encontro ao correr solto da massa cinzenta de asfalto e automóveis a sua frente. Mas a memória lhe dizia que era pecado, que era ida direta pro inferno. E as longas promessas de anos? E os olhos de Nossa Senhora olhando cálidos pra ela na capela de todo dia? Melhor... E os olhos atentos de seus filhos quando saiu aturdida de casa? Não. Eles estavam criados. Ela tinha a fé dos outros fiéis e as ofertas do domingo. E o inferno, o inferno não deveria ser tão ruim, afinal da quentura já estava acostumada, pelos 80 minutos diários que andava até o trabalho. Aliás, pra quê pensar tanto? A dor já chegava de novo. "Ele não me quer mais", "Não posso mais cuidar as roupas e da janta dele", "E agora?", "Agora é ela"... Não! Já foi... Ela foi. Ela foi sem se benzer. Atrapalhou o tráfego e o público, como na música das proparoxítonas. Só não era sábado, era um dia mais comum.

Entre o último passo e o último fôlego vi um alívio em dentes lavados de uma poeira encarnada. Um alívio que já conhecia, da mulher que ultrapassa o extremo, que aguenta a dor de ser rompida ao dar à luz, mas que não suporta sentir as navalhadas da lâmina fina do amor que dói.

Nota: Leitura do caso de uma conhecida que suicidou-se por ter perdido o companheiro.

sábado, 7 de março de 2009

A moça-flor, o Cuidador e o Dono

As flores estavam frescas. Estava colhendo flores no quintal alheio e vi uma moça-flor em cachos de pétala desbotados, olhos sem cor e pele meio opaca. O que tirara a cor dos seus olhos estava em seu ventre jovem e precoce. Dois beija-flores espelhados, casados pelos bicos que se beijavam. Assim sugavam da moça e um do outro toda a doçura do sopro de vida. Eles desabrochavam e ela murchava. O jardineiro, cuidador por excelência, decidiu pela moça-flor. Só ele sabia bem o que seria capaz de fazer a beleza de uma moça em flor... mas o Dono da terra achou que deveria punir o Cuidador por ele ter cuidado da flor. Ele não gostava de cuidadores. Logo os cuidadores, que cuidam tão bem e fazem por amor à beleza da flor. Logo aquele Dono, que sonhava em ser dono dos outros jardins e de todas as terras e agem por respeito a egos inflados.

Quando estava indo embora, vi o sorriso do Cuidador, vi que a tentativa de punição não fez a menor diferença. Vi que seus olhos brilhavam em alívio por ter cuidado de mais aquela moça, novinha em flor. Correspondi com um sorriso cheio de gratidão. Peguei as minhas flores frescas, prontas e fui enfeitar minha sala. "Aquele Cuidador de sorriso florido tinha razão", pensei eu com meus botões de flor, enquanto os olhava. Ele conhece com maestria a beleza de que cuida. E já ninguém mais lembrava do Dono, nem o Cuidador às voltas com os cuidados de outra flor - moça ou madura - nem os outros beija-flores que com certeza apareceram para sugar de novo e na hora certa aquela flor, nem eu, que já havia ido colher mais histórias de flor em outros jardins.


Nota: Leitura do caso dos médicos recifenses que foram excomungados pela Igreja por fazerem aborto em garota de 9 anos, grávida de gêmeos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O Pierrot Embriagado e a Verdade em Gotas


Um gole. Um sorriso ao acaso. Um gole. Uma piscadela à toa. Um gole. A parede dança. Um gole. Olhos vigiantes. Um gole. Uma lembrança de eu menina. Um gole. O cheiro molhado do perfume da noite. Um gole. Um gosto doce de cana destilada. Um gole. Meus olhos travam ao piscar. Um gole. Antigas impressões desfeitas. Um gole. Imagem tosca de um pierrot vista no espelho do banheiro. Um gole. Uma ideia anunciada. Um último gole. Uma máscara caída. Não a do pierrot. Dele só caiu uma lágrima lúcida.

Nota: Leitura de uma constatação em uma noite inebriante de Carnaval.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Mousse de Coco



Fruto do coqueiro. Cor de algodão. Doce como nuvem. Mistura láctea, suave. É misturando que se apura.





Este doce é muito simples e vale a pena qualquer um preparar rapidinho, mesmo antes de fazer o almoço, que dá tempo saborear como sobremesa. Para quem provou e gostou, aqui a receita...
Ingredientes
01 vidro de leite de coco (pequeno)
01 lata de leite condensado
01 lata de creme de leite
04 claras em neve
04 colheres de sopa de coco ralado desidratado
Preparo:
Bata no liquidificador o leite de coco, o leite condensado e o creme de leite. Depois de bem misturado, acrescente a clara em neve previamente batida e misture tudo com a colher de pau. Não use batedeira nem liquificador nessa fase, pois os picos da clara em neve pode se desfazer e perder a consistência.Por último, junte o coco ralado, misture e leve ao congelador.
Pronto! Pedacinhos de nuvem adocicados ao seu alcance... bom apetite!!!


Nota: Esta não é uma leitura. É uma receita de prazer. :)

Explosão

Uma vez sonhei que não aguentava mais pensar. Cada letra pensada se inflava dentro de mim, como que cheia de ar, não de som e significado. Nem quando eu falava elas saiam, nem quando falava muito. Nem quando lia um livro todo em voz alta, nem assim elas se iam. Se eu ficava em dúvida no que fazer pro jantar elas me inchavam. Quando eu lembrava de uma música da infância... pluft! Quando fazia contas na cabeça, mesmo dois + cinco - três... pluft, pluft!

E nesse dia eu queria mais era explodir, jorrar. Desnudar minha mente. Porque entendi que não adiantava pensar por que havia tanto sapato no mundo e tão pouca comida, porque percebi que o homem nasceu marcado com a corrupção desde Eva, porque não interessava mais saber por que meu pai tinha se separado de minha mãe se jurou a Deus ficar com ela, porque aquela garotinha foi atingida por aquele carro naquele domingo...

E a vontade crescia porque esses pensamentos não vinham sozinhos, vinham carregados de sentimentos, e esses faziam as letras, as palavras, as ideias serem infladas de um hélio diferente, meio acizentado, que me neblinava as vistas, meio alaranjado, que me lembrava fogo, que esquentava, que me dilatava mais. Já era quase combustão quando pari uma gota salgada de alívio pelos olhos. Depois, mais uma e mais algumas. E pari uma ideia, uma palavra, uma letra quente que agora também ardia, porque palavra cheia de sentimento consome ar e, quando liberta, queima.

Esse dia foi hoje e a pele úmida me segredou que não era sonho. Uma dor vermelha e sufocante me levou o pensamento. Ele foi livre, parido, tranquilo. E eu explodida, mas leve, já podia voltar a inflar meus novos balõezinhos de palavras cheios de sentimento.

Nota: Esta é uma leitura e uma confissão. :)